Refletindo sobre a experiência dos Empórios Solidários de Bolonha, na Emília-Romanha italiana*

Texto escrito a pedido de Maria Augusta Nicoli, uma militante e gestora pública da reforma sanitária italiana e de diversas políticas intersetoriais, que conhece muito também do Brasil. Pessoa que tem o mesmo nome de minha avó, de quem sou amigo, admiro e adoro.

Fui em uma atividade do Laboratório Ítalo-brasileiro de práticas, formação e pesquisas em saúde coletiva que me proporcionou uma experiência singular e muitíssimo interessante. Com um grupo, visitei seis empórios solidários de Bolonha. Os empórios solidários são pequenas mercearias nas quais pessoas em situação de pobreza podem “comprar” mercadorias com uma moeda específica dos empórios que considera a condição de cada pessoa e família.

Para refletir sobre essa experiência, começo usando o compositor brasileiro Caetano Veloso. Em sua canção “Sampa”, ele imortalizou o verso “porque narciso acha feio o que não é espelho”. Tentei processar em mim mesmo esse estranhamento narcísico buscando um devir mais antropológico, fazendo um esforço racional e emocional de mergulhar na experiência, percebê-la desarmado de a priori e de conceitos pré-concebidos. Não é simples evitar os polos: seja aquele da “síndrome de vira-lata”, que tende a achar que tudo que vem de fora, especialmente dos países do norte global, é melhor, seja o outro polo que invalida a priori o que vem da Europa como possibilidade para os países do sul. Nisso o devir antropólogo ajuda. O caso é compreender o que é aquilo no contexto italiano para as pessoas implicadas. Refletir, aprender, maturar e, só depois, desenvolver como o aprendido pode enriquecer a práxis no nosso contexto, com nossas condições, desafios, objetivos e perspectivas.

Esse texto ensaístico processa a experiência usando o devir antropólogo e, depois, faz uso de referenciais de alguns estudos da sociologia e da economia para refletir como os aprendizados dessa experiência poderiam apoiar a formulação de iniciativas e políticas no Brasil.  

Tratando panoramicamente da experiência em si, que é riquíssima e vale muito a pena ser estudada, os empórios solidários são lojas não comerciais de centenas de produtos, naturais, manufaturados e industrializados, que têm o objetivo de assistir pessoas em situação de vulnerabilidade. Essas pessoas são aquelas que, por algum motivo e com acesso ou não a outros programas sociais, não conseguem adquirir os produtos necessários à sua subsistência no mercado. No caso bolonhês, são pessoas e famílias vulneráveis e empobrecidas, idosos em situação de abandono, imigrantes, pessoas em situação de rua entre outras. Para ser atendido por um empório é preciso se cadastrar nele, em um processo no qual a condição da pessoa e da família são analisadas para considerar a elegibilidade.

Os empórios têm um conjunto diversificado de produtos em suas prateleiras. Há alimentos de primeira necessidade e não perecíveis, o que no Brasil é chamado de “cesta básica”, há alimentos perecíveis como frutas, frios, hortaliças e muitos itens para uma alimentação saudável. Como se trata da Itália, é indispensável a farta diversidade de massas, queijos e embutidos. Há alimentos sazonais, como os panetones que chegaram às prateleiras depois do Natal. Há até alimentos ultraprocessados e menos saudáveis como biscoitos e guloseimas, aqueles que as crianças de classe média costumam levar para o lanche na escola. A justificativa da equipe foi que, caso as crianças e suas famílias queiram, não será por falta de acesso a esses alimentos que as crianças atendidas se verão em condição de inferioridade com relação a seus colegas de sala na escola pública.  

Mas há muitas coisas além de alimentos. Para crianças há fórmulas lácteas, papas, fraldas, materiais escolares e brinquedos. Há absorventes para as mulheres e produtos voltados a diferentes perfis, seja relacionado aos ciclos de vida, como idosos, seja devido às atividades culturais, como fantasias para o carnaval.

Os empórios desenvolvem ainda diversas atividades. Buscam capacitar as pessoas para a cidadania e para a inserção no mercado de trabalho. Usam o espaço como um polo de promoção de uma rede social comunitária. Assim, ensinam italiano, dialogando com as diferentes línguas que os imigrantes falam, fazem cursos para fazeres artesanais, como corte e costura e oficinas de bijuterias. Disponibilizam brinquedoteca para as crianças com idade inferior à da escolarização obrigatória e biblioteca com clube de leitura e empréstimo de livros.

Os empórios são mantidos por uma combinação de recursos. Há doações de pessoas e, principalmente, pactuações com empresas para doações regulares, especialmente supermercados. Para entender a relação com os supermercados é necessário tratar de uma regulamentação da União Europeia que buscou combinar segurança alimentar com redução do desperdício. É o Regulamento (UE) N.º 1169/2011 que exige que se coloquem duas datas de vencimento nos produtos. A primeira aponta a data na qual o produto tenderá a perder algumas de suas características, pode perder um pouco do sabor, por exemplo, mas ainda estará em condição de consumo consumível: escreve-se “consumir de preferência antes de…”. A outra data aponta a previsão de deterioração do produto que o desaconselha ao consumo humano seguro: escreve-se “consumir até…”. Os estabelecimentos de distribuição e venda não podem vender produtos depois da primeira data. Esse modelo, de um lado, tem reduzido o desperdício de alimentos pela população, que não descartam mais o produto após a primeira data, e, de outro, tem fomentado doações por parte das empresas de distribuição e venda. Os empórios sociais, restaurantes comunitários e organizações de filantropia têm recebido essas doações.

O governo da Itália, com orientação cada vez mais à direita nos últimos anos, reduziu diversos programas de apoio às populações vulnerabilizadas, imigrantes e, também, reduziu os recursos destinados a iniciativas da sociedade civil como os empórios. Neste último caso, existem ainda editais de concessão de recursos públicos para os quais as organizações que gerem os empórios concorrem, mas cada vez mais raros e com menos financiamento. Já a Comuna de Bolonha (administração municipal), há décadas com gestões e orientação de esquerda, tem mantido o apoio a essas iniciativas por meio da alocação de recursos e cessão de imóveis, meios de transporte, equipamentos, móveis e de funcionários públicos para as diversas atividades.

Mas, sem dúvida, o que mantém os empórios funcionando e crescendo é a rede robusta de voluntários organizados. Os empórios são organizações não estatais, geridas de forma colegiada, com participação de representantes das associações (religiosas e não religiosas) que os gerem, do Estado (Comuna de Bolonha) e dos usuários. Há uma massa de voluntários que assegura o funcionamento dos empórios no mínimo cinco dias por semana durante todo o ano. Em outra ocasião visitei, também em Bolonha, um restaurante popular com características semelhantes. Em ambos os casos a sustentação se dá pelo emprego robusto de força de trabalho voluntária que vai dos motoristas, transportadores, cozinheiros, atendentes, assistentes e responsáveis pela manutenção, limpeza e gestão. 

Nos restaurantes populares são cobrados valores muito mais baixos das pessoas que os usam, sendo gratuitos em casos definidos. Nos empórios existe um sistema que implementa uma moeda específica e local. De acordo com a situação e a necessidade das pessoas e famílias, elas recebem uma quantidade de pontos por mês. Podem usar esses pontos para “comprar” os produtos com regras de uso que regulam a disponibilidade estabelecendo máximos que cada pessoa ou família pode levar de um determinado tipo de produto em um dado período. O objetivo é regular os usos dos pontos de cada pessoa e família para evitar que alguns produtos faltem a outras, que haja desequilíbrio e que seja feita a revenda de produtos.

Também tem regras para o tempo que as pessoas podem usar os empórios. A lógica é apoiar a pessoa em situações de vulnerabilidade, mas partindo da ideia de que o objetivo é reinseri-la no mercado de trabalho de modo sustentável. Por isso a existência de atividades de capacitação para aumento da empregabilidade e o apoio para que acessem benefícios em programas sociais. Busca-se evitar uma situação de dependência. Claro, há exceções, como nos casos de crianças e idosos que não têm aposentadoria.

Considerando alguns conceitos caros à economia e à sociologia, como família, comunidade, mercado e Estado, podemos dizer que a experiência dos empórios sociais de Bolonha combina ações de solidariedade da comunidade (sociedade civil organizada e pessoas da cidade) com políticas públicas de apoio da Comuna de Bolonha com o objetivo de promover o bem-estar social a pessoas cuja situação de mercado e familiar não lhes assegura as condições mínimas de subsistência. As pessoas responsáveis pelo empório que nos apresentaram a experiência fizeram questão de afirmar, mais de uma vez, que promover o bem-estar social é uma responsabilidade do Estado, da comunidade e de cada pessoa. Disseram que se orgulhavam muito da comunidade de Bolonha ter um histórico de participação ativa e abrangente em ações de solidariedade. Citaram o próprio número de voluntários atuando cotidianamente na experiência como um exemplo concreto disso.

Ações como essa, que poderíamos classificar como híbridas por envolver o Estado, mas haver protagonismo, execução de atividades, uso de recursos e direção da sociedade civil, soam com certa desconfiança para pessoas no Brasil que atuam em prol de políticas sociais para ampliação e consolidação de direitos sociais. No Brasil, esta é uma agenda majoritariamente da esquerda e a esquerda brasileira tem, historicamente, uma referência estatista muito forte: seja legada por modelos locais, como o do Estado centralizado getulista ou do Estado desenvolvimentista, seja baseada em experiências internacionais, com a da antiga União Soviética. A ação direta de solidariedade quando relacionada a movimentos sociais ou organizações como as sindicais, é mais bem recebida que quando provém de uma mobilização mais autônoma da sociedade civil. Estas últimas acabam remetendo a experiências de filantropia no Brasil às quais a esquerda costuma reagir cobrando laicidade, sustentabilidade e criticando a inadequada transferência de responsabilidades que seriam do Estado para o terceiro setor e para a comunidade.

Não conseguimos aprofundar o assunto nesse nível no diálogo que fizemos no empório. Mas tentei compreender os valores, conceitos e percepções dos italianos que nos apresentaram a experiência. Eles pareceram ter uma tranquilidade muito maior com essas iniciativas híbridas. Mencionaram positivamente a força de ações com autogestão da sociedade e, parece-me, mal conseguiram entender que ali havia uma sutil “não convergência”, digamos assim, entre o que eles diziam e alguns dos que os escutavam. Perguntados sobre as responsabilidades do Estado, os italianos reforçaram, mais uma vez, a solidariedade e responsabilidade social como princípios, tendo a preocupação de não justificar isso em bases teológicas. No esforço de se fazerem compreendidos, usaram a expressão inglesa “accountability”, cuja tradução e uso no Brasil tem sido mais estreito do que o significado que eles tentaram expressar. 

Fazendo uma autocrítica penso que há mesmo em nós, da esquerda brasileira, uma dificuldade de compreender de modo diferente ações diretas das pessoas que não sejam lutas por direitos e pela direção da ação do Estado. Como exemplo, demoramos a perceber e compreender as complexas facetas das ações e redes de solidariedade que as organizações comunitárias religiosas protestantes neopentecostais conseguiram tecer nas comunidades mais vulneráveis de nossas cidades. Além da organização das práticas religiosas propriamente ditas, a igreja, suas lideranças e os “irmãos” constituem uma comunidade específica que atua para atender e acudir seus membros nas mais variadas dificuldades, para conseguir empregos para eles, cuidar de crianças e idosos do grupo, assegurar teto temporário em situações de necessidade, garantir clientela para um negócio que alguém da comunidade mantém, conseguir alimento e emprestar dinheiro para alguma necessidade etc.

Além dessa autocrítica, há outra reflexão mais profunda que pode ser feita usando esses conceitos de família, comunidade, mercado e Estado. Vou tomar como exemplo alguns estudos sobre as respostas e efeitos na população do avanço das contrarreformas neoliberais nos anos 1980 e 1990, aquelas que resultaram na perda de direitos e no desamparo social de importantes grupos sociais. A sociologia portuguesa, com destaque para estudos feitos pelo grupo de Boaventura de Souza Santos, analisou casos em diferentes grupos de países: países europeus mais ricos e desenvolvidos, países europeus que foram chamados de periféricos, como Portugal, e países não europeus em desenvolvimento, como o Brasil. Constataram que o modo como se combinava ação, reação, mobilização de recursos e assunção de responsabilidades pelas famílias e comunidades fazia diferença nos efeitos do retrocesso das políticas do Estado de bem-estar social.

Fazendo aqui uma apertada síntese, os estudos apontaram que os países que consolidaram mais o Estado de Bem-Estar Social de fato desmercadorizou diversas relações e serviços, como por exemplo, o cuidado de crianças e idosos, saúde, educação, medidas de amparo em situações de desemprego, reinserção no trabalho etc. As famílias e comunidades deixaram de fazer isso ao longo desse período, de modo que os laços familiares e comunitários necessários a essas ações foram desfeitos. Mas tampouco as pessoas precisavam comprar esses serviços no mercado, pois era direito de cidadania e assegurado por políticas públicas. Com o retrocesso no Estado de bem-estar social e interrupção de algumas dessas políticas, as famílias e comunidades não conseguiam mais assumir essas funções, parte crescente das pessoas, empobrecidas, não conseguiam contratar esses serviços no mercado e o resultado foi importante e abrangente desamparo social. Paradoxalmente, países com um Estado de bem-estar social menos consolidado, como Portugal, ou incipiente e incompleto, como o Brasil, mostraram mais resiliência, porque as famílias e comunidades não chegaram a deixar de fazer todas essas funções. De outro lado, sabemos também que a maioria dessas funções, quando realizadas pelas famílias, apresentam uma fortíssima diferença de gênero: recaem sobre as mulheres e as sobrecarregam com uma carga extraordinária de trabalho não remunerado.  

Perspectiva similar tem sido usada em estudos econômicos e sociais sobre a quem cabe a responsabilidade de sustentar e cuidar dos idosos em países como a China. Para conseguir compreender a situação e bem-estar dos idosos e como são as políticas de previdência social na China, ou mesmo a estranha falta delas, é central analisar o papel cultural milenar do confucionismo na responsabilidade que os filhos têm para com os seus ancestrais vivos. A mesma coisa sobre as políticas de emprego e assistência ao desempregado, que passam por compreender a relação entre comunidade, lideranças comunitárias, governos municiais e empresas na China. Ou seja, caso só se analise Estado e mercado, sem incluir as famílias e comunidades, a análise peca ao explicar o fenômeno.

Para concluir, penso que experiências como a dos empórios solidários e restaurantes comunitários de Bolonha, além de nos emocionar, devem ser matéria de análises profundas. Praticando o mencionado devir antropológico e usando essas ou outras tantas ferramentas conceituais na análise, devemos refletir sobre a experiência sem preconceitos. Podemos, a partir dos aprendizados oportunizados por ela, inovarmos nos modos de pensarmos iniciativas sociais e políticas públicas. Seja articulando ou não a ação direta da comunidade organizada com a ação do Estado, devemos buscar a mobilização de valores de solidariedade das pessoas, práticas de auto-organização da sociedade e dispositivos de participação popular que busquem assegurar, ao mesmo tempo, plasticidade, resiliência, sustentabilidade e mobilização progressiva de recursos, tanto os do Estado quanto outros tantos da sociedade civil.

Interoperabilidade à serviço da qualificação da saúde e da gestão do sistema de saúde: o caso de uma Plataforma Digital Brasileira

Há outro capítulo de nossa autoria no Livro “Digital Healthcare: A Multidisciplinary and Comprehensive Vision” da Springer Nature.

Trata-se daquele cujo título é “Interoperabilidade à serviço da qualificação da saúde e da gestão do sistema de saúde: o caso de uma Plataforma Digital Brasileira” (acessível aqui) e que teve como autores eu, Hêider Pinto, e José Santana, Arthur Chioro, Ana Maria Lima e João André Oliveira e Marjan Askari.

Este outro capítulo aborda a interoperabilidade na área da saúde, que é a capacidade de diversos sistemas, dispositivos, aplicativos e softwares trocarem, interpretarem e utilizarem informações do cidadão-paciente de forma integrada.

A interoperabilidade é essencial para facilitar o compartilhamento de dados e a comunicação de modo eficaz entre profissionais de saúde, usuários, serviços e outras partes interessadas relevantes.

Para alcançar a interoperabilidade é necessário estabelecer um ecossistema no qual múltiplos sistemas colaborem harmoniosamente.

O capítulo descreve as principais etapas envolvidas na construção da interoperabilidade da mais robusta experiência do tipo no Brasil.

A Plataforma Eletrônica de Saúde (iPES) é uma solução brasileira de interoperabilidade na área da saúde, resultado de uma parceria público-privada inovadora.

Desenvolvida em 2019, ela combina segurança de dados, padrões tecnológicos avançados e uma abordagem colaborativa que tem produzido surpreendentes resultados na atenção integral à saúde, na coordenação do cuidado, na avaliação e gestão dos serviços de saúde e na área de desenvolvimento tecnológico e inovação.

Com tecnologia brasileira e inicialmente utilizada em sistemas públicos locais de saúde, a iPES começa a ser implementada também em serviços privados, conveniados e contratados.

O capítulo lança luz sobre uma experiência que pode inspirar análises e iniciativas internacionais semelhantes.

A experiência de Recife na transformação digital da saúde no contexto de uma Cidade Inteligente

Publicado o capítulo “A experiência de Recife na transformação digital da saúde no contexto de uma Cidade Inteligente” (Disponível clicando aqui) no Livro “Digital Healthcare: A Multidisciplinary and Comprehensive Vision” da Springer Nature.

Tendo como autores eu, Aristides de Oliveira Neto, Gustavo Godoy, Arthur Chioro, Homero Cavalcanti, José Santana, Rodrigo Pinho e Tássia Andrade, capítulo aborda a transformação digital da saúde em Recife, em consonância com o conceito de Cidades Inteligentes, para promover o desenvolvimento socioeconômico e a qualidade de vida.

A análise focou em 5 dimensões:

  • um plano estratégico abrangente;
  • a centralidade da tecnologia na prestação de serviços;
  • o investimento em capital humano e social;
  • a governança de dados; e
  • a participação em redes de cidades inteligentes.

Foram discutidos e analisados:

  • o “Conecta Recife”, um hub com centenas de serviços online;
  • O Centro de Telessaúde, com teleconsultas e telemonitoramento;
  • o Programa “Minha Saúde Conectada”, que promove a interoperabilidade de dados de saúde e facilita o acesso dos cidadãos às suas informações;
  • o Programa “Embarque Digital”, com capacitação tecnológica para jovens e que tem feito Recife figurar como a cidade que, proporcionalmente, mais forma em TIC; e
  • o Programa “EITA! Recife” de inovação aberta que tem revolucionado os modos do Estado produzir inovação desafiando e cooperando com a sociedade, pesquisadores, inventores, organizações públicas e privadas, instituições de ensino e pesquisa, startups e empresas.

Vale a pena ler!

Conhecendo Viena: Cidade Inteligente, políticas públicas e transformação digital

Em vez de pegar o avião em Bolonha mesmo, fiz uso do eficiente sistema ferroviário europeu e resolvi começar minha viagem de volta por Viena.

Um dos interesses é o estudo sobre Cidades Inteligentes que venho fazendo há alguns anos.

Junto com Copenhague e Amsterdam, Viena é uma das cidades que se destaca na Europa por ter estratégia integrada e visão de longo prazo para a transformação digital; usar intensivamente dados para melhorar a efetividade e eficiência dos serviços públicos, melhorar a qualidade de vida e incluir socialmente; e investir na mobilidade inteligente e na gestão de energia, água e resíduos.

De um modo geral, a Áustria está bem mais avançada que a Alemanha, por exemplo, na implementação de identidade digital segura e amplamente utilizada.

Tem interoperado dados, integrado e modernizado o serviços públicos com amplo uso digital da população e índices de satisfação que chegam a 75%. E o projeto Plataforma Industria 4.0 envolve o governo, centros de pesquisa e empresas na transformação digital do setor produtivo.

Voltando à capital, a transformação digital na saúde, especificamente, não é uma dimensão na qual Viena avança tanto, como Copenhague e Recife, por exemplo.

Mas Viena dá show com avanços nas áreas de sustentabilidade energética e ambiental; no transporte público, integrando os vários modais, promovendo o ciclismo, implantando semáforos “inteligentes” etc.; e na habitação…

O caso da habitação é um dos mais bem-sucedidos do mundo com uma abordagem estruturada há décadas em uma perspectiva social-democrata, com grande participação estatal e focada na equidade social.

São diversos os instrumentos utilizados na política de habitação vienense:

– programas públicos de financiamento de habitações acessíveis (tipo o “Minha casa minha vida”);

– estímulo para que o setor sem fins lucrativos construa habitações (similar a legislações anteriores de Buenos Aires);

– empresa municipal que planeja e executa a construção de moradias, a maior empresa municipal de habitação da Europa;

– gestão pública de Viena, historicamente, administra um percentual impressionante de moradias, aproximadamente 25% de todas as habitações de Viena, praticando aluguéis sociais para famílias com menor renda, idosos e primeira moradia de jovens (o que é uma crise em Lisboa, por exemplo); e

– legislação que coíbe preços abusivos de aluguel pelos proprietários das 75% de moradias que são privadas.

Com tudo isso a cidade busca equidade, regula os preços, se antecipa e planeja o espaço urbano, evita a gentrificação e assegura que pessoas de diferentes rendas tenham acesso à moradia digna e convivam no espaço urbano.

A transformação digital qualificou fortemente a política de habitação porque:

– facilitou o acesso das pessoas à inscrição nos programas e escolha dentre as opções;

– gestão de dados populacionais foi combinada como ferramentas digitais de planejamento urbano, na projeção de expansões, na intervenção no mercado de aluguéis etc.; e

– tem promovido cada vez mais a participação cidadã digital com consultas públicas sobre planos de urbanização e habitação, proposição de ideais dos cidadão, avaliações etc.

Lembrei dos austromarxistas, como Max Adler, Otto Bauer e Karl Renner. Na época do movimento estudantil os via com desconfiança, ao estudar políticas públicas, com respeito. Legaram estratégias políticas de longo prazo, valores sociais solidários e comunitários e uma estável arquitetura institucional.

A POLÍTICA PARA A ATENÇÃO PRIMÁRIA EM SAÚDE NO BRASIL: UM PANORAMA DE SUA TRAJETÓRIA E EVOLUÇÃO

Publicamos o artigo (que pode ser acessado aqui) “50 anos da Política para a Atenção Primária em Saúde no Brasil: um panorama de sua trajetória e evolução” com Helvécio Miranda Magalhães Júniora, Ana Maria Freire de Souza Lima e Dirceu Ditmar Klitzke.

O ensaio analisa a trajetória da política nacional de Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil desde a criação do Sistema Único de Saúde (SUS) e a implantação dos programas de Agentes Comunitários de Saúde e Saúde da Família, passando pelas três edições da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), pelo Programa Previne Brasil, até as mudanças implementadas entre 2023 e 2025.

Foi utilizada uma abordagem reflexiva, fundamentada nos campos da Saúde Coletiva e da Análise de Políticas, com base em evidências documentais, revisão bibliográfica e na experiência acumulada dos autores na formulação, gestão e pesquisa em políticas de APS. A trajetória da política foi analisada a partir dos desafios à expansão e qualificação da APS pactuados pela gestão tripartite e pelo controle social do SUS em 2011.

Seis desses desafios foram selecionados e organizados em cinco eixos analíticos, que orientam o exame de como cada um foi enfrentado em distintos períodos históricos. Os resultados indicam um percurso majoritariamente incremental, marcado por um momento de ruptura e outro de retomada. Conclui-se que a APS no Brasil apresenta uma trajetória sólida, com avanços significativos, mesmo diante de episódios de descontinuidade. A análise permite identificar eixos estruturantes relevantes para estudos futuros e para a formulação de políticas de APS em contextos similares.

Plataforma Nacional Brasileira de Telediagnóstico: um relatório analítico de dados para pesquisa científica e melhoria da saúde pública

Publicado na Revista Científica “Frontiers in Digital Health” (acessível aqui), colaborando com diversos autores nucleados no LAIS/UFRN, o artigo baseia-se em um grande volume de informações clínicas e demográficas, com uma amostra robusta da população brasileira, oriundas da Plataforma Nacional de Telediagnóstico. A produção descreve o processo de coleta destes dados, a organização e a formatação; faz análises de variáveis ​​críticas como distribuição por sexo, faixas etárias, dispersão geográfica e comorbidades; busca aprofundar a compreensão dos padrões de saúde da população; e, por fim, tenta contribuir com a formulação e desenvolvimento de estratégias inovadoras em saúde pública baseadas em evidências.

Os autores são: Walter Soares B. R. Filho, Letícia A. N. de Sousa, Heider A. Pinto, Raphael S. Fontes, Gleyson J. P. Caldeira Silva, Felipe Fernandes, Ingridy Barbalho, Antonio H. F. de Morais, Ernano Arrais Júnior, Tiago de Oliveira Barreto, Cesar A. Teixeira, Jorge Henriques, Guilherme Medeiros Machado, Janaína Valentim, Karilany D. Coutinho, Ricardo Valentim.

Panorama analítico das tecnologias de informação e comunicação no SUS da década de 1990 à de 2020

Publicado artigo “Panorama analítico das tecnologias de informação e comunicação no SUS da década de 1990 à de 2020” (que pode ser acessado aqui) cujos autores são José Santana, eu (Hêider Pinto), Carlos Pilz e Arthur Chioro.

O novo artigo da edição de 50 anos da Revista Baiana de Saúde Pública oferece um panorama analítico do avanço das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no SUS e suas contribuições para a mudança de práticas profissionais, serviços de saúde e gestão do sistema, de 1990 a 2020.

O artigo mostra que, inicialmente limitadas a sistemas administrativos de controle e remuneração, as TIC se tornaram elementos centrais de políticas públicas, impactando o desenvolvimento das ações de saúde e ampliando acesso e qualidade da atenção.

A análise destaca a informatização dos serviços nos anos 1990, com sistemas como o Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA) e o Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB); a implementação de prontuários eletrônicos nos anos 2000; priorização da interoperabilidade e consolidação do e-SUS-APS na década de 2010; e a aceleração da Saúde Digital na década de 2020, com regulamentação da teleconsulta, experiências de interoperabilidade e incorporação da Inteligência Artificial (IA) à Política Nacional de Informação e Informática em Saúde (PNIIS).

Por fim, artigo conclui que o futuro das TIC no SUS modificará significativamente o processo de trabalho em saúde, sendo necessário protagonismo da sociedade e do Estado na promoção democrática de modelos de atenção e desenvolvimento que ampliem direitos e repartam benefícios e riquezas.

Superando a histórica fragmentação de dados no SUS

Publicado o artigo “Superando a histórica fragmentação de dados no SUS: interoperabilidade em Recife e na Ebserh” (acessível aqui) cujos autores são eu, Hêider Pinto, José Santana, Ana Maria Lima e Arthur Chioro.

A publicação neste último número da Saúde em Debate descreve e analisa a integração das experiências de desenvolvidas por Recife e pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que criou a 1ª federação de dados de Registro Eletrônico de Saúde (RES) entre dois barramentos de interoperabilidade.

Em junho de 2023, passaram a interoperar duas plataformas (que operam um barramento) de RES que disponibilizam dados para profissionais de saúde e os próprios usuários, donos de seus dados.

Além do recebimento de prêmios nacionais pelo ineditismo, efetividade, abrangência e eficiência, o caso mostra soluções e caminhos, incluindo o projeto de interoperabilidade e seu modelo tecnológico. Contata-se que a fragmentação das informações nos diferentes sistemas, prontuários eletrônicos e outras aplicações foi superada contribuindo para a melhoria da integralidade do cuidado, da capacidade de análise de dados e da tomada de decisão.

Artigo: A jornada do SUS na Busca da Integralidade: panorama das políticas para a atenção primária e especializada

Publicado o artigo “A jornada do SUS na Busca da Integralidade: panorama das políticas para a atenção primária e especializada” (acessível clicando aqui) escrito por mim, Hêider Pinto, e o grande Helvécio Miranda Magalhães Jr para a edição comemorativa de 50 anos da Revista Baiana de Saúde Pública.

O ensaio analisa a trajetória de políticas para a Atenção Primária em Saúde (APS) e para a Atenção Especializada em Saúde (AES) na busca pela integralidade no SUS. Discute a integralidade como um marcador analítico dessas políticas, destacando desafios, avanços e inovações, com foco especial no contexto de formulação,
nos legados e nas características da Política Nacional de Atenção Especializada em Saúde (PNAES).

A análise focalizou a evolução da APS, os legados históricos do modelo hegemônico na AES, as experiências de inovação nos três níveis de gestão do SUS que influenciaram a formulação da PNAES, o contexto e as características da PNAES.

Os resultados evidenciam avanços importantes da APS, uma AES fragmentada, isolada da APS e herdeira de um modelo centrado em procedimentos médicos. A PNAES apresenta uma série de inovações para mudar essa trajetória ao propor diretrizes que enfatizam a Rede de Atenção à Saúde (RAS), a integração com a APS, a mudança do modelo de atenção, a regulação de 2ª geração, a transformação digital e a mudança do modelo de financiamento.

Conclui que, para avançar na integralidade, serão necessárias ações coordenadas entre APS e AES, implementação articulada dos dispositivos da política e aprendizagem com a experiência prévia de gestão federativa do SUS.

Artigo sobre Federação de Dados entre Barramentos de Saúde na Frontiers in Digital Health

Publicamos um artigo na reconhecida Frontiers in Digital Health tratando da pioneira e mais robusta experiência no Brasil de Federação de Dados entre Barramentos de Interoperabilidade de dados em saúde. O artigo pode ser lido e baixo aqui neste link (Interoperability in universal healthcare systems: insights from Brazil’s experience integrating primary and hospital health care data)

As e os auores, Michelle Fernandez, Hêider Pinto, Luisa Fernandes, João André de Oliveira, Ana Maria Lima, José Santana e Arthur Chioro trataram do caso da Federação entre o barramento de Recife, que interopera mais de 15 sistemas e soluções de TIC da Saúde, e o da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, que interopera os dados dos 46 hospitais universitários federais.

Desenho semelhante foi implementado entre o Grupo Hospitalar Conceição e a Ebserh tambem, mas Recife foi o primeiro e é o tratado com mais detalhe no artigo.

Um síntese do que o artigo trata, em português, é o que segue:

Discute a transformação digital dos sistemas de saúde, como essencial para enfrentar desafios como a transição epidemiológica e o aumento dos custos da saúde e observa que há avanços significativos na remodelação que as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) estão fazendo na atenção, vigilância e gestão em saúde.

Destaca os progressos notáveis alcançados em uma iniciativa colaborativa e inovadora feita entre a cidade do Recife, com mais de 1,5 milhão de habitantes, e a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que administra mais de 45 hospitais universitários federais. Juntas, elas estabeleceram a primeira federação de dados do Brasil entre duas plataformas de interoperabilidade — uma municipal e outra federal — conectando dados dos níveis primário, secundário e terciário de atenção. Essa integração permite a troca segura de informações sobre vacinas, exames diagnósticos, medicamentos, agendamento e registros clínicos, facilitando a continuidade do cuidado ao longo da jornada do paciente.

O artigo contribui para, a partir de um caso concreto, em funcionamento e exitoso, perceber a importância estratégica da interoperabilidade para o fortalecimento dos sistemas de saúde e a melhoria da qualidade e eficiência do atendimento ao cidadão/usuário em ambientes institucionais complexos. Ao promover a colaboração interinstitucional e fomentar a inovação, esses esforços contribuem para o avanço de objetivos mais amplos do sistema de saúde e para a melhoria da prestação de serviços em nível nacional.